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Em “Tempestades”, Monica Casagrande revisita o passado para entender o que permanece

Em “Tempestades”, Monica Casagrande revisita o passado para entender o que permanece

Por Redação

10/09/2026 às 19:13

Imagem de Em “Tempestades”, Monica Casagrande revisita o passado para entender o que permanece

Foto: Stephanie Veronezzi

A cantora e compositora Monica Casagrande reúne diferentes momentos de sua história no EP “Tempestades”, com quatro faixas: três releituras e uma canção inédita, que dá nome ao projeto. Escritas em períodos distintos, as músicas se encontram no presente a partir de experiências de mudança, deslocamento, memória e pertencimento.

A própria história do EP acompanha esse movimento. O projeto começou a ser desenvolvido em 2019, quando Monica convidou Iran Ribas e Raissa Spada para criar novas leituras de suas canções. Seis anos depois, em 2025, os três artistas retomaram o processo e deram forma à versão atual.

“São quatro músicas escritas em momentos diferentes, mas que, quando revisitadas hoje, revelam uma pergunta comum: o que permanece em nós quando a vida muda de lugar?”, explica Monica.

A investigação começa em “Cárcere do Carcará”, composta a partir de uma experiência de perda, afastamento e aprisionamento emocional. A imagem do carcará - ave associada à força, ao voo e à independência - aparece dentro de um cárcere, criando uma contradição que atravessa a canção: existir potência para partir e, ainda assim, permanecer preso a alguma coisa. Ao revisitar a faixa, Monica também reencontra a artista que começava a formular perguntas sobre liberdade, identidade e pertencimento.

Em “Moça do Vestido Molhado”, composta com Vini Blanco, o pertencimento aparece pelo encontro. A canção parte da imagem de alguém que chega molhado, sozinho e carregando uma história que o outro não conhece completamente. Em vez de tentar explicar ou salvar essa pessoa, propõe um gesto de acolhimento: caminhar junto e aceitar também se molhar. É uma música sobre intimidade, vulnerabilidade e as pessoas que, em determinados momentos, se tornam casa.

Já “Segundo Ato do Novo” nasce de uma despedida. Monica escreveu a canção quando deixou a banda Sol a Pino para iniciar sua carreira solo, transformando a saída em homenagem à sua primeira casa artística em São Paulo. Anos depois, a faixa ganha outro sentido ao retornar em um projeto construído ao lado de Iran Ribas, ligado àquela mesma origem, e de Raissa Spada, que participou da primeira concepção das releituras. Partir, aqui, não significa deixar de pertencer.

A sonoridade do EP acompanha esse jogo entre passado e presente. Programações, sintetizadores, guitarras e violões se encontram com congas, atabaques, alfaia e outras percussões, aproximando diferentes camadas da música brasileira de uma produção contemporânea. Iran Ribas assina guitarras, baixos, sintetizadores, violões e programações, além de gravação, edição, mixagem e masterização, e participa dos backing vocals. Raissa Spada - integrante do Obinrin Trio e artista de trajetória solo - atua como produtora, arranjadora, percussionista e backing vocal.

Entre as referências que atravessam a construção do EP estão Os Tincoãs, pela força vocal e dimensão ancestral; Clara Nunes, pela relação entre corpo, natureza, ritmo e espiritualidade; e Ibeyi, pelo encontro entre vozes, percussão, ancestralidade e elementos eletrônicos.

É nesse percurso que surge “Tempestades”, única faixa inédita do projeto, composta por Monica e Iran Ribas. A canção reúne imagens de natureza, memória e origem - mato, maré, areia e chuva - em contraste com aviões, concreto e uma vida marcada pela pressa. O retorno proposto pela música não é necessariamente geográfico: é um reencontro com referências, afetos e valores que continuam acompanhando a artista mesmo quando a vida muda de lugar.

“A tempestade, para mim, é aquilo que desloca. Ela muda a paisagem, altera rotas, interrompe planos e nos obriga a reorganizar referências. E esse projeto, de alguma maneira, também atravessou suas próprias tempestades. Esse disco não conta uma história em que a tempestade passa e tudo volta ao normal. Pelo contrário: depois de uma tempestade, a paisagem já não é exatamente a mesma, e nós também não somos”, finaliza Monica.

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