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Em “Tudo Enquanto”, João Gabriel transforma a finitude em ponto de partida para investigar a existência
Em “Tudo Enquanto”, João Gabriel transforma a finitude em ponto de partida para investigar a existência
Por Redação
03/11/2026 às 16:00

Foto: Mariana Ávila
A consciência de que tudo acaba pode ser justamente o que torna cada experiência tão valiosa. É desse paradoxo que parte "Tudo Enquanto", álbum de João Gabriel que chega às plataformas pelo Sonastério. Em seu primeiro trabalho solo, o músico transforma inquietações pessoais sobre o tempo e a existência em canções que combinam psicodelia e gravações ao vivo.
O título vem de “Quase Toda Alegria”, quarta faixa do disco e primeira composição do projeto. A expressão sintetiza a simultaneidade de acontecimentos, sentimentos e transformações que atravessam a vida. Em vez de buscar respostas definitivas sobre o que permanece quando o presente passa, João Gabriel toma essa incerteza como ponto de partida para o repertório.
“É uma frase que tem muita informação pra pouca palavra. Fala sobre simultaneidade, sobre todas as ações, sentimentos e transformações que se desenrolam ao mesmo tempo”, explica o artista. A ideia também carrega uma contradição: se a transitoriedade torna cada instante precioso, a possibilidade de que tudo seja esquecido relativiza a importância que atribuímos às coisas. Entre esses dois extremos, o álbum explora o significado das experiências sem tentar encerrá-las em uma única interpretação.
Essa dualidade aparece também na capa, que contrapõe uma árvore sem folhas, evocando a morte, ao sol nascente, associado à renovação. A imagem sintetiza a convivência entre encerramentos e recomeços, um dos eixos conceituais do disco.
A busca por uma expressão espontânea orientou tanto a composição quanto a gravação. Influenciado pela abordagem de bandas, especialmente as da década de 1970, João Gabriel reuniu uma formação fixa de instrumentistas com quem já mantinha relações profissionais e de amizade. Depois de apresentar as demos à equipe, levou os músicos ao estúdio e registrou as canções ao vivo, após apenas dois ensaios.
A escolha privilegiou a interação entre os integrantes e a abertura para o inesperado, em vez do controle minucioso de cada execução. “Eu gosto disso pois dá espaço para o não planejado, para o intuitivo de cada um. Além de fugir da busca por perfeição, que acredito estar deixando muita música estéril atualmente”, afirma.
O artista também dispensou o Auto-Tune e a edição das performances instrumentais, preservando as características originais das interpretações. As edições ficaram sob sua responsabilidade, mas sem a intenção de eliminar as imperfeições da execução. A proposta era manter a expressividade dos músicos e a energia particular de cada sessão.
Musicalmente, Tudo Enquanto explora a psicodelia, timbres expressivos e levadas que ampliam as possibilidades de escuta. As construções instrumentais e as letras abordam temas que nem sempre encontram explicação racional, deixando espaço para a imaginação e para diferentes leituras do repertório.
Grande parte das letras é assinada por Pedro Tenca, letrista e tecladista que já colabora com João Gabriel em outros projetos. A afinidade criativa entre os dois permite transformar as inquietações do músico em construções poéticas sem reduzir a ambiguidade que caracteriza o disco.
A estreia solo marca uma mudança de perspectiva na trajetória de João Gabriel, que passa a reunir suas próprias referências e questões em um projeto autoral. A relação com o formato álbum, cultivada desde a adolescência, também orientou a construção do repertório: em vez de reunir faixas independentes, o músico concebeu uma experiência de escuta contínua, na qual as composições dialogam entre si sem perder suas particularidades.
O projeto terá ainda um desdobramento audiovisual. As performances de todas as faixas foram filmadas e documentadas para compor um curta-metragem dirigido por Emanuel Duarte, responsável também pela filmagem, concepção visual e edição. A direção criativa é compartilhada com João Gabriel, e a iluminação é assinada por Caio Luiz. O filme amplia a dimensão performática do álbum ao registrar os músicos e a atmosfera das gravações.
Ouça na sua plataforma digital favorita: https://onerpm.link/154132031148
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