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Exposição 'Joaquín Torres García - 150 anos' no CCBB SP reflete sobre integração cultural em momento de divisões e polarizações nas Américas

Exposição 'Joaquín Torres García - 150 anos' no CCBB SP reflete sobre integração cultural em momento de divisões e polarizações nas Américas

Por Redação

15/01/2026 às 10:00

Imagem de Exposição 'Joaquín Torres García - 150 anos' no CCBB SP reflete sobre integração cultural em momento de divisões e polarizações nas Américas
Em um momento histórico marcado por tensões internacionais, disputas narrativas e recrudescimento de fronteiras entre nações, a exposição Joaquín Torres García – 150 anos, no Centro Cultural Banco do Brasil São Paulo (CCBB SP), propõe um gesto silencioso e profundo: deslocar o ponto de vista a partir do qual se olha o mundo. Sem tratar de conflitos territoriais ou alianças de poder, a mostra convoca uma reflexão sobre culturas, escuta e pertencimento, além de afirmar a arte como espaço de integração e não de polarização.

Com entrada gratuita e cerca de 500 itens expostos — entre obras, documentos, manuscritos, publicações, brinquedos de madeira e materiais pedagógicos —, a mostra apresenta ao público brasileiro o pensamento e a obra de um dos artistas mais decisivos da modernidade latino-americana. O eixo simbólico da mostra é o icônico Mapa Invertido (1943), imagem que atravessa gerações como um gesto radical de afirmação cultural do Sul Global.

A exposição se constrói como um campo de pensamento e escuta, reafirmando a arte como lugar de reconstrução simbólica. O gesto de Torres García não propõe confronto nem inversão de dominação, mas um reposicionamento ético e espiritual do olhar: reconhecer, no Sul, não uma periferia, mas uma origem possível do pensamento universal.

“Quando Torres García afirma que ‘nosso Norte é o Sul’, ele nos indica que temos uma realidade tão complexa do ponto de vista de uma expressão civilizatória quanto os povos de outros continentes. A inversão da América é um lugar interior conectado pela visão do exterior, para tornar acessível a ideia de elevação coletiva de uma parte da América, que por acaso é a América do Sul, senão a elevação interior da humanidade sul-americana.”

“Não basta falar sobre decolonialidade — é preciso praticá-la”, observa Saulo di Tarso, curador em colaboração com o Museo Torres García. “Esta mostra é um ato decolonial porque restitui a voz a um artista que pensou a partir da América Latina, sem complexos de inferioridade.”

Ao deslocar o eixo do continente, a exposição lança uma pergunta fundamental: onde pulsa o coração da América? À luz do pensamento de Torres García, a resposta não se encontra em um ponto fixo do mapa, mas no coração de cada americano, na pluralidade dos povos que estavam, estão e que aqui chegaram.

“O coração da América está em cada americano e americana e nas qualidades diversas da pluralidade dos povos que estavam aqui, onde estamos, para onde migramos. A América Invertida não é um protesto, mas um símbolo de ascensão espiritual, resultado de uma trajetória marcada pelas batalhas de um homem comum que acreditava na força de união entre as pessoas e nas energias criadoras que atravessam cada cultura.”

O Universalismo Construtivo, conceito central na obra de Torres García, não propõe uma sociedade universal homogênea nem um modelo industrial de mundo. Ao contrário, reconhece que existem símbolos, formas e geometrias universais e sagradas presentes nas expressões de todos os povos, no passado e no presente. Esse universal não se impõe sobre o diferente, mas nasce do reconhecimento da singularidade do outro.

“A América que se revela é a que precisa cuidar do seu território e do seu modo de vida. Que precisa vencer a herança do divisionismo que separa o Norte e o Sul”, exemplifica.
 
Arte e vida
Torres García foi um dos artistas que mais profundamente buscou compreender a naturalidade da cultura africana, percebendo afinidades entre povos distintos e atribuindo a essas semelhanças um valor essencialmente humano. Por isso, sua obra aproxima arte e vida, assim como o fazem a arte africana, a arte indígena e as expressões culturais das Américas, nas quais criação, cotidiano e espiritualidade não se separam.

Esse pensamento teve impacto decisivo no Brasil. A influência de Torres García atravessou o desenvolvimento da arte concreta e neoconcreta, reverberando em artistas como Anna Bella Geiger, Alfredo Volpi, Hélio Oiticica, Cildo Meireles, Rubens Gerchman, entre outros presentes na exposição – no total, 72. O diálogo com produções contemporâneas reafirma a ideia de que a integração entre percepções distintas é mais potente do que sua oposição.

A expografia, assinada por Stella Tennenbaum, funciona tanto como um apoio curatorial quanto como uma metáfora espacial. A linha contínua que percorre os espaços do CCBB se inspira no Tratado de Tordesilhas, mas não como uma fronteira rígida — e sim como um caminho a ser atravessado e repensado. Ela mostra o distanciamento conceitual e cultural da América do Sul em relação aos marcos coloniais e europeus, destacando que a cultura se constrói pela circulação, pelo encontro e pelo deslocamento, e não pela contenção ou divisão.

Selecionada no Edital CCBB 2023–2025, a mostra inaugura sua itinerância em São Paulo e segue para Brasília (março de 2026) e Belo Horizonte (julho de 2026). Em cada cidade, o projeto assume novas inflexões, reafirmando que o Sul não é um lugar fixo, mas uma postura diante do mundo.

No Brasil, este é o recado mais profundo da "América Invertida" de Joaquín Torres García: a relação que importa não é entre territórios, mas entre culturas. Uma relação fundada na escuta, na convivência das diferenças e no reconhecimento de que o universal só pode existir quando é construído a partir da pluralidade.

 
Confira todos os artistas presentes e citados na exposição
Agustín Sabella; Agripina Manhattan; Alexander Calder; Alfredo Jaar; Alfredo Volpi; Aparicio Basilio; Anna Bella Geiger; Anna Bella Geiger (reaparece como eixo teórico-geracional da mostra); Assis Chateaubriand; Bispo do Rosário; Carlos Garaicoa; Carlos Zilio; Carmelo Arden Quin; Cícero Dias; Cildo Meirelles; Darcy Ribeiro; Delson Uchôa; Di Cavalcanti; Emanuel Nassar; Emanoel Araújo; Estela Sokol; Fábio Miguez; Ferreira Gullar; Fernando López Lage; Flávio de Carvalho; Greta Sarfati; Guga Szabzon; Guilherme Galle; Gyula Kosice; Heitor Villa-Lobos; Hélio Cabral; Jac Leirner; Jaime Lauriano; Jandira Waters; Jean-Michel Basquiat; John Cage; Juan Pablo Mazzetto (Mapeto); Jacqueline Lacasa; Leda Catunda; Leonilson; Lina Bo Bardi; Luiz Sacilotto; Mano Penalva; Manuela Costa Lima; Marconi Moreira; Marcos Chaves; Mario de Andrade; Márcio Ficko; Milton Santos; Milton Santos (reafirmado como centro conceitual da cartografia anímica); Montez Magno; Pablo Picasso; Pablo Uribe; Paulo Otávio; Piet Mondrian; Pietro Maria Bardi; Quincy Jones; Rafael RG; Raimundo Colares; Randolpho Lamounier; Rivane Neuenschwander; Robert Kelly; Ronaldo Azeredo; Rosana Paulino; Rubens Gershman; Santos Dumont; Sérgio Camargo; Sidney Amaral; Sofia Borges; Tuneu; Vanderlei Lopes; Wesley Duke Lee.

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