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CRÍTICA: “Feito Pipa” nos lembra que o amor permanece quando a memória voa

CRÍTICA: “Feito Pipa” nos lembra que o amor permanece quando a memória voa

Por Robson Cobain

05/11/2026 às 08:00

Imagem de CRÍTICA: “Feito Pipa” nos lembra que o amor permanece quando a memória voa

Você já teve que desistir de um sonho? E quando essa desistência tem um motivo ainda maior, que é cuidar de quem sempre cuidou de você? Em “Feito Pipa”, longa nacional que estreia hoje (5), este é apenas um dos assuntos abordados com muita delicadeza.

Com direção de Allan Deberton, “Feito Pipa” chega como uma poesia sobre amor, cuidado e descoberta. Nele, Gugu (Yuri Gomes), de apenas 12 anos, apaixonado por futebol, tem uma vida simples no interior do Ceará, mas cheia de afeto na casa da avó, Dilma (Teca Pereira), uma professora aposentada. A relação entre eles é o maior destaque da obra e, se me permitem ir para um lado mais pessoal, me lembra em muitos pontos a vivência com minha saudosa avó paterna.

“Feito Pipa”  toca profundamente quem conhece a fundo a dor e a beleza do cuidado. O longa  aborda o Alzheimer de forma gradual, desde um pequeno esquecimento até momentos mais impactantes. Para mim, que vivi na pele a rotina de acompanhar o avanço do Alzheimer quando ajudei a cuidar da minha avó, ao lado da minha tia e de uma prima, os momentos vieram acompanhados de lágrimas que eram impossíveis de controlar, tanto pela dor de lembrar da perda, quanto pelas boas memórias sobre minha avó. Reconheci nas dinâmicas construídas entre o elenco aquele mesmo misto de cansaço e amor incondicional que compartilhamos em casa. O filme conseguiu captar com perfeição essa jornada familiar, com a força do trabalho em equipe entre quem cuida, os silêncios carregados de significado e a busca diária por resgatar um vislumbre de quem aquela pessoa sempre foi.

Ao tratar um assunto tão sério, a direção de Deberton se destaca por fugir do sensacionalismo. O diretor prefere caminhar pela ternura dos pequenos gestos, pelo afeto e pelo cuidado minucioso com o enquadramento. Até nos momentos mais difíceis, o amor permanece de várias formas, mesmo quando faltam palavras.

O olhar sensível de Allan é toda a equipe também se manifestam em outros temas abordados. Aqui, vale destacar a relação de Gugu com seu pai, Batista (Lázaro Ramos), que não é das melhores e fica sempre na tentativa de engatar. O principal problema entre eles está no pai não aceitar o filho como ele é e também parecer não lembrar que ele é apenas uma criança. A relação entre eles é tem conexão com muitos que devem ir aos cinemas para conferir a história.

Voltando a falar sobre ótimas entregas, o trio principal de “Feito Pipa” entrega performances viscerais à todo momento. Lázaro apresenta contradição e devoção paterna com o seu Batista. Enquanto isso, Teca Pereira emociona a cada cena no papel da avó Dilma, com todo aquele ar materno e ao mesmo tempo “rebelde”. O  jovem Yuri Gomes surge como uma grande revelação, conduzindo o olhar do espectador com uma entrega emocionante, intensa e transparente.

“Feito Pipa” chega para nos lembrar da importância do amor e da memória. Uma pipa pode até se perder no céu, mas a linha que a conduziu até lá poder ser mais forte que tudo e sustentar o que realmente importa nas nossas vidas. É uma obra emocionante, necessária e memorável no cinema brasileiro recente.

Nota: 4.5/5

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