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“Cabeça Quente”, novo espetáculo de dança de Marcos Ferreira e Ruan Will, estreia 1° de outubro
“Cabeça Quente”, novo espetáculo de dança de Marcos Ferreira e Ruan Will, estreia 1° de outubro
Por Redação
21/09/2026 às 10:20

Foto: Alice Rodrigues
O que fazer com uma cabeça que tem todos os motivos para estar quente? É a partir dessa pergunta que os artistas Marcos Ferreira e Ruan Wills constroem "Cabeça Quente", novo espetáculo de dança que estreia em outubro de 2026. A obra parte da força de Oyá para investigar a raiva, a ancestralidade e as masculinidades, tendo como ponto de partida as experiências dos dois artistas, homens negros, gays, candomblecistas e periféricos.
A temporada começa em Salvador, no Espaço Xisto Bahia, nos dias 1º, 2 e 3 de outubro, às 20h, com bate-papo após a apresentação do dia 3. Em seguida, o espetáculo chega ao Cine Lauro de Freitas, em 16 de outubro, às 19h, e ao Espaço Cultural Alagados, em 22 de outubro, às 17h. As duas últimas apresentações também serão acompanhadas de bate-papo. Todas as sessões da temporada de estreia são GRATUITAS e os ingressos podem ser retirados através do SYMPLA, ou pelo perfil @dembwa_.
Depois de Dembwa, em que os artistas perguntavam “Qual é a pessoa mais antiga da sua família que você conhece?”, "Cabeça Quente" dá continuidade à pesquisa sobre ancestralidade e caminhos de existência com dignidade. Se no trabalho anterior o desejo era aprender com quem veio antes, agora Oyá surge como uma referência para ressignificar caminhos e posturas.
Foto: Alice Rodrigues
Raiva como consciência
Em "Cabeça Quente", a raiva é também o ponto de partida para a criação. Mas não aparece como sinônimo de ódio ou descontrole. É compreendida como uma força que nasce da consciência diante da violência e pode produzir movimento, transformação e continuidade. Colocando em questão como os corpos de homens negros, gays e periféricos são percebidos socialmente.
“A raiva aparece como energia condutora da criação. Uma raiva que não nasce simplesmente do ódio, mas da consciência que surge quando a violência deixa de ser aceita como destino. Buscamos escutar essa força, perceber o que ela movimenta e no que pode se transformar quando encontra o corpo, a ancestralidade e o desejo de continuar.”
A pesquisa parte da compreensão de que, diante de tecnologias coloniais de morte, povos negros produziram tecnologias ancestrais de continuidade. Separação tornou-se comunidade; violência, ritual; memória, cultura; silêncio, linguagem; ausência, presença. “A sociedade embranquecida coloca nossos corpos pretos e bichas em descontrole. Mas a nossa raiva vem da consciência, uma estratégia afrofuturista de sobrevivência”, afirmam os artistas.
Do Daró ao vento
O Daró de Oyá, ritmo tocado para a yabá, é um dos fundamentos da pesquisa coreográfica. A partir dele, os movimentos baseados no ternário entram em diálogo funk, frevo, maracatu, samba, arrocha, pagodão baiano, capoeira e o gingado dançado nas avenidas carnavalescas. A cena é atravessada pela circularidade e pela sinuosidade. Os corpos se encontram e se enfrentam. Há um corpo que se arma para a guerra cotidiana, mas também um corpo que aprende a reconhecer, retornar e mudar de direção.
Em determinado momento, os intérpretes assumem a força da búfala. Chifres, braços e musculatura constroem uma presença de potência, enquanto os pés sapateiam em referências às brincadeiras de infância. O corpo-búfala circula e, aos poucos, se transforma em vento. O movimento passa pela ginga da capoeira e chega ao eruexim (ferramenta de Oyá), que também se transmuta: vira força, gesto, punho cerrado.
A sequência conduz ao confronto, ao afronte e ao ranger dos dentes. Em dança, a força física abre espaço para uma reflexão sobre o masculino. É quando se reafirma uma das questões centrais do espetáculo. A partir do ofó (poder da palavra) do cantor, compositor e pesquisador da ancestralidade musical pan-africana Mateus Aleluia, na canção O Sagrado Masculino, afirma-se: “o sagrado masculino é gestado e parido pelo sagrado feminino.”
A afirmação conduz uma reflexão sobre as referências que formaram esses homens e sobre as mulheres — avós, mães, tias, irmãs e tantas outras — que ensinaram os artistas a existir. Reverenciar o sagrado feminino, portanto, também significa questionar os modelos de masculinidade construídos por uma sociedade marcada por estruturas coloniais e patriarcais.
“Nossa experiência enquanto homens negros, gays, candomblecistas e periféricos nos coloca diante da necessidade de questionar essas aprendizagens e imaginar outras formas de existência. Estamos aprendendo com Oyá a força de uma cabeça quente: de passear pelos planos, fluir na chama e saber medir os graus a menos ou a mais, conforme nossas necessidades”.
Fundamento em movimento
Para Marcos e Ruan, trazer ritmos e danças cotidianas para a cena é uma forma de manter o fundamento vivo. A pesquisa entende que transmutar as próprias referências não significa negar quem veio antes. Significa honrar a ancestralidade também pelo direito de continuar criando a partir dela. “Desta forma mantemos o fundamento em movimento. Aprendemos a fluir na chama e nos ventos de Oyá. Cabeça Quente é sobre caminhos de continuidade”, destacam.
Nove batidas anunciam a retomada. O corpo desperta. O respiro vira vento. A circularidade torna-se também um portal de retorno. Receber. Escutar. Questionar. Transformar. Devolver. Se em Dembwa a pergunta era quem veio antes, em Cabeça Quente os artistas perguntam: quem nos ensinou a ser quem somos e quais dessas aprendizagens precisamos transformar para continuar existindo com dignidade?
Nesse percurso, Ori (cabeça) é também território de investigação: a cabeça que ferve, pensa e aprende a mudar de temperatura. Os aras (corpos) se movimentam entre força, confronto, dança e transformação. Oyá ensina que não existe forma definitiva. O vento muda porque está vivo. Cabeça Quente não quer apagar o fogo, negar a raiva ou controlar o vento. Quer aprender a escutá-lo.
Este projeto foi contemplado nos Editais da Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura na Bahia, realizados com recursos do Governo Federal repassados pelo Ministério da Cultura, e executados pelo Governo do Estado da Bahia, por meio da Secretaria de Cultura do Estado.
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